Regina Tavares
A trajetória de resistência, ancestralidade e compromisso com a cultura afro-brasileira ganha um novo registro na coletânea Fé, Cultura e Memória: narrativas de presença e poder, organizada pela pesquisadora e escritora Sandra R. Coleman, atualmente radicada nos EUA e publicada pela Editora Revista África e Africanidades. Entre as biografias reunidas na obra está a história de Geneci Maria da Penha, conhecida nacionalmente como Noinha do Jongo, uma das principais referências da cultura jongueira no Norte Fluminense. O texto biográfico foi produzido pela escritora e jornalista Sandra Martins do RJ, que nesta mesma coletânea, foi responsável pela entrevista e biografia de outras mulheres negras do estado.
Mais do que narrar a vida de uma liderança cultural, a publicação contribui para preservar parte importante da história da população negra no estado do Rio de Janeiro, especialmente das comunidades que mantiveram vivas tradições herdadas de africanos escravizados e seus descendentes.
Nascida em 1944, em Campos dos Goytacazes, Geneci Maria da Penha construiu sua trajetória a partir de uma herança familiar profundamente ligada ao jongo, manifestação cultural reconhecida como uma das mais importantes expressões da ancestralidade afro-brasileira. Sua história atravessa gerações marcadas pela escravidão, pelo trabalho nas lavouras da região e pela luta cotidiana contra o racismo e a exclusão social.
Ao reconstruir a memória de seus antepassados, a biografia evidencia aspectos frequentemente ausentes dos registros oficiais. A narrativa resgata experiências de famílias negras que viveram a transição entre o período escravista e o pós-abolição, revelando como trabalhadores rurais, empregadas domésticas, operários e pequenos agricultores ajudaram a construir a identidade social e cultural do Norte Fluminense.
A publicação também destaca o papel do jongo como instrumento de resistência. Originária dos povos bantos das regiões do Congo e de Angola, a manifestação chegou ao Brasil por meio das populações africanas escravizadas e foi preservada ao longo dos séculos por meio da oralidade, da música, da dança e dos saberes transmitidos entre gerações.
No caso de Noinha, essa herança tornou-se missão de vida. Reconhecida como Mestra Jongueira do Grupo Jongo Congola, ela dedicou décadas à valorização da tradição, promovendo apresentações, oficinas, rodas de conversa e atividades educativas em escolas, universidades e comunidades. Seu trabalho ajudou a aproximar novas gerações de uma cultura que, durante muito tempo, foi marginalizada e invisibilizada.
A biografia também lança luz sobre outro aspecto importante da experiência negra brasileira: o racismo religioso. Adepta de religiões de matriz africana, Noinha enfrentou episódios de discriminação ao longo da vida, inclusive em ambientes profissionais e comunitários. Ao registrar esses acontecimentos, a obra contribui para ampliar o debate sobre intolerância religiosa e liberdade de crença, temas ainda atuais na sociedade brasileira.
Além da atuação cultural, o livro evidencia a multiplicidade de sua trajetória. Técnica de enfermagem aposentada, escritora, compositora, poetisa e ativista do movimento negro, Noinha tornou-se uma referência na defesa da cultura afro-brasileira e da memória coletiva de Campos dos Goytacazes. Sua produção intelectual inclui pesquisas sobre o jongo na região e iniciativas voltadas ao registro dos saberes tradicionais.
A relevância da publicação ultrapassa o campo biográfico. Em um contexto no qual pesquisadores e movimentos sociais buscam ampliar a presença de narrativas negras na produção histórica brasileira, obras como Fé, Cultura e Memórias: narrativas de presença e poder desempenham papel fundamental ao registrar trajetórias que ajudam a compreender a formação cultural do país.
Ao reunir histórias de lideranças negras, a coletânea contribui para preservar patrimônios imateriais que nem sempre encontram espaço nos livros didáticos ou nos registros institucionais. No caso de Noinha do Jongo, a publicação transforma em documento permanente uma vida dedicada à valorização da ancestralidade, da cultura popular e da memória afro-brasileira.
Mais do que contar a história de uma mulher, a obra registra a história de uma comunidade, de uma tradição cultural e de um legado construído pela resistência. Em tempos de valorização da diversidade e da preservação das memórias coletivas, a biografia de Noinha reafirma a importância de reconhecer e registrar as contribuições da população negra para a identidade cultural fluminense e brasileira.